
Shê umbó Nagô?... É a leitura, ou melhor, a pronúncia da frase escrita acima como título dessa intervenção. Traduzido para o português, o título significa: “Você entende (a língua) Nagô?” Essa era a pergunta que o negro yorubano dirigia ao seu interlocutor (também negro), para lembrá-lo da sua “posição inferior”. Mas... o que vem a ser Nagô e de onde vinha essa pretensa superioridade?
O maior crime contra a humanidade que a história registra (conhecido como tráfico negreiro) trouxe para o “novo mundo” o maior contingente humano trasladado de um continente para outro. Os negros africanos, nossos ancestrais, forma trazidos de todas as partes da África onde as guerras (muitas delas incentivadas e por vezes orquestradas pelo europeu), pudessem gerar prisioneiros de guerra, que eram levados do seu lugar para servirem como mão-de-obra escrava nas partes colonizadas da própria África (como ilha da Madeira, e São Tomé) e nas Américas.
A Bahia dos anos 1800, foi cenário de uma franca movimentação de negros escravizados e libertos, movimento este visto como “perigoso para as instituições” (dentre as quais, a instituição escravista), conforme documentos oficiais da época guardados no Arquivo Público Estadual, no bairro de Quintas dos Lázaros. Os negros islamizados eram hegemônicos. Esses negros, na sua maioria membros da etnia hauçá, sabiam ler e escrever o árabe, devido à obrigatoriedade na sua religião, da leitura do Alcorão, o livro sagrado do Islã. Daí eram bem organizados. O episódio que passou a história como A revolta dos Malês (malê é uma palavra derivada do termo imalé da língua Yoruba, que significa muçulmano) foi um levante negro aqui na nossa Salvador, no qual a liderança dessa comunidade negra muçulmana foi dizimada. A revolta foi originalmente bem organizada. Mas, deflagrada de forma abortiva, colheu como resultado o fracasso. Essa Revolta dos Malês (também conhecida como revolta dos escravos de Alá) registrou-se de 25 a 27 de Janeiro de 1835 na nossa cidade de Salvador, capital da então Província da Bahia. No confronto morreram sete integrantes das tropas oficiais e setenta do lado dos revoltosos. Duzentos e oitenta e um, entre escravos e libertos, foram detidos no Forte do Mar(Forte São Marcelo) e levados aos tribunais. Suas condenações variaram entre a pena de morte para quatro dos principais líderes, os trabalhos forçados, o degredo e os açoites. Com o declínio da hegemonia malê, formou-se nas comunidades negras-escravas-libertas um vazio de poder. Esse vazio foi preenchido pelo negro yoruba, talvez, por algumas caracterísitcas marcantes da cultura desses povos, marcadas por uma sabedoria peculiar, que nos acompanha até os nossos dias, caracterizadas pelas “estórias de nagô”. Quem são os Nagô?
Os povos de Ketu, Egba, Egbado e Sabé, foram alguns dos que chegaram à Bahia provenientes do reino Yorubá. O reino Yorubá compreende o sul e centro da atual República do Benin (antigo Daomé, sendo que parte deste país é dos povos ewe-fon, mas cujas fronteiras são difíceis de definir), parte da República do Togo e todo o sudoeste da Nigéria. O povo de Ketu foi o que mais contribuiu para a implantação da cultura nagô no estado bahiano. Os araketu (isto é, cidadãos de ketu) procuraram reconstituir as suas instituições de estrutura social forte tentando adaptá-las ao novo meio com a maior fidelidade possível aos padrões básicos de origem. Mais que qualquer outra, a cultura nagô-yorubá foi a que mais se sobe impor no seu novo contexto.
Hoje a palavra ketu representa, acima de tudo, a mais tradicional manifestação de religiosidade negra. No entanto, sabe-se que os Yorubás não se viam a si mesmos como um todo, muito por culpa da extensão do território e assim forte presença das identidades locais. Antes de se ter conhecimento do termo Yorubá, nos primeiros registros e mapas datados de entre 1656 e 1730, é o termo “Ulkumy” que designava a região yorubá. Os yorubá que foram levados para Cuba são até hoje referidos pelo nome de Lukumi, uma corrupção, sem dúvida, do termo Ulkumy.
Depois de um capitão inglês traficante de escravos de nome William Snelgrave, por volta de 1734, o termo “Ulkumy” é substituído por Ayo ou Eyo, no intento de designar Oyó, a capital do país dos Yorubás. Em 1726 o comandante do forte português de Ajudá, Francisco Pereira Mendes, relatou à Bahia, os ataques levados a cabo pelos Ayos contra os territórios de Adjá. Esse porto de Uidá era chamado de Gléhué pelos dahomeanos ou fons, Igéléfé pelos yorubás e Ajudá pelos portugueses. Uidá era habitado pelos hwéda e tornou-se o principal porto de exportação dos escravos inimigos do Dahomé (ou Dahomey).
Os Nagôs são na verdade os negros dos reinos Dahomé e Ardra, reinos vinculados ao Império Yorubá-Oyó, que foram levados para a Bahia no comércio escravo. Através deste processo de inclusão negra no território brasileiro como mão-de-obra escrava espalharam-se as culturas negras marcando para sempre a alma e identidade brasileiras. No entanto, é na Bahia que essa presença se sente mais, através das comunidades-terreiro que surgiram e vão surgindo neste Estado.
Hoje, nós membros das comunidades negras e mestiças herdamos a obrigação de carregar à bandeira da preservação desse rico legado cultural relegado a parte inferior do tapete da ignorância e do racismo cego institucionalizado nesse pais. Cabe a nós e não a outros pugnar pela imposição de limites a intolerância que muito antes de se caracterizar como religiosa é cultural. Transformar o denominado legado jeje-nagô em “axé-music”, e “carnaval p´ra vender cerveja” é muito mais do que descaso ou oportunismo é crime contra a humanidade.
Por favor, notem que nessa intervenção, não fiz menção as Heranças dos negros bantus, não fiz referencia ao povos de Angola-Congo, nem falei do Zaniapombo, nem falei do Muchi-Congo...mas ainda vou falar.Peço a sua paciência e o sei apoio.
Encerro essa página com a seguinte mensagem:
Gbogbo ènìyàn ni a bí ní òmìnira; iyì àti ẹ̀tọ́ kọ̀ọ̀kan sì dọ́gba. Wọ́n ní ẹ̀bùn ti làákàyè àti ti ẹ̀rí-ọkàn, ó sì yẹ kí wọn ó máa hùwà sí ara wọn gẹ́gẹ́ bí ọmọ ìyá.
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em direitos e dignidade. São dotados de razão e consciência e devem agir uns para com os outros com espírito de irmandade.
(Artigo 1º da Declaração Universal de Direitos do Homem).

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