Quem nasceu em Salvador ou em algumas
cidades do Recôncavo baiano e já passou dos 50 anos, teve, certamente, a
felicidade de ter convivido com netos ou bisnetos de escravos africanos durante
parte da vida. Conheci na minha infância, “Dona Doú”, que para pedir licença ao
pessoal que jogava bola na capelinha do Tororó, pedia: “ago, ago lona...”. E os
jovens, na mistura de ignorância e desrespeito diziam jocosamente: “´perái
pessoal que a Vó de mundinho (hoje, finado Raimundo, que já foi o melhor
repinique da Bahia) quer chutar em
gol”... E a risadaria era geral. (Saudades do meu Tororó, da Escola de Samba
cujo presidente, meu Tio Arnaldo Silva, está aí sinalizando o Samba da Bahia,
que merece o maior respeito. Eu ensaiava todo o ano, par no Carnaval ser
proibido de desfilar pela irmã se meu tio, minha mãe. Afinal, Samba, era “coisa
de vagabundo”).
Hoje, após a evolução do conceito de
herança africana que felizmente orienta a maioria dos estudos antropológicos e
de história em curso nas nossas terras, sei um pouco mais sobre a minha
infância e as minhas origens. Primeiro é necessário enfatizar que meus pais vêm
do Recôncavo: Meu pai tem raízes que ainda estão vivas na Ilha do Patí, ali em
São Francisco do Conde, e minha mãe vem de Maragogipe, sendo que meu avô
materno era sobrinho de Xanxa de Ogum, Mãe de Santo muito conhecido na cidade
de São Gonçalo dos Campos (conhecida na época e ainda hoje lembrada pelos mais
antigos de lá). Aí, é desse povo que muito cedo, eu ouvia falar em “tocar o
bembé”.
Hoje após alguns anos de estudo de
Língua e Cultura Iorubá e Cultura Ewe-Fon, em função da posição que os Voduns
me confirmaram no Culto ao Panteão Savaluno, cheguei à condição de melhor
entender alguns pontos o que, contudo, não esclarecem ainda completamente as
minhas dúvidas. Por exemplo, o dicionário Inglês-Iorubá de título “A Dictionary
of the Yorùbá Language”publicado pela primeira vez em 1913 pela Church
Missionary Society Bookshop, Lagos, e
tendo a sua 17ª edição publicada pela University Press PLC, Ibadan
(Nigéria), em 2001 (como o exemplar que tenho em mãos), traz na segunda parte,
onde estão as palavras em Iorubá, página 55 o verbete “Bẹ̀mbẹ́”, que, ainda de acordo como o
dicionário,significa tipo de tambor haussá. Deixo para os estudiosos
especializados a tarefa de levantar mais esclarecimentos sobre as reais origens
do “Bembé do Mercado de Santo Amaro”.
O que eu quero mesmo dizer é da alegria
que senti ao ver meu povo, o povo guardião do Panteão Savaluno, tendo a frente
o nosso Dote Amilton, ao lado do prefeito Ricardo Machado, pelas ruas
principais da cidade na noite de 10 para 11 de maio, com o povo de Santo Amaro,
ao lado dos Filhos de Gandhi, dançando ao seu tradicional ritmo “Ijexá” até
sermos recebidos em grande estilo, pela benção da Ebomi Nice de Oya, e pelos acordes
musicais de Jerônimo.
O povo negro dessa terra é
fundamentalmente um povo de santo.
“Savalú,
Savalú, Savalú na se kpe,
Dago
na shi a gba Savalú na se kpe”
Referência:
1.
http://historiabrasil.spaceblog.com.br/2245953/A-Revolta-dos-Males-Os-escravos-muculmanos-no-Brasil/
2.
A
Dictionary of the Yorùbá Language; 2001; University Press PLC Ibadan;ISBN
9780307605;
3.
Imagem: Foto tirada pelo Dofono George
Sogbossi na noite do dia 10/05/2013, em Santo Amaro;

